Investimentos: 20% é técnica

O aspecto psicológico representa 80% do sucesso nos investimentos, enquanto que o fator técnico representa 20%.

O aspecto técnico

No campo de investimentos, o aspecto técnico corresponde a 20% dos resultados – o que é muito. Afinal, não se trata apenas de ser paciente e ter autoconhecimento: é preciso conhecer os produtos financeiros e saber onde se está investindo.

Estratégia de investimento

A pergunta a se fazer aqui é: a tomada de decisão de investimentos está em linha com meu contexto de vida, recursos e habilidade?

Lembre-se de dois pontos essenciais: opte pelo simples, que é sempre melhor (fácil de entender + fácil de executar  = maior nível de conforto). Esteja ciente que perfeição não existe. Não há estratégia que funcione bem em todas as condições de mercado. Não invista em algo que você não consegue entender em 5 minutos. Opte pelo fácil.

A tomada de decisão está em linha com sua situação, recursos e habilidade? Você comete o erro de investir em produtos demasiadamente difíceis de compreensão? Opte pelo simples.

Manejo do dinheiro

Saber diversificar bem é o princípio que te permite permanecer vivo. E, continuar vivo significa poder voltar no dia seguinte e continuar o plano estabelecido inicialmente.

Como é o manejo do seu dinheiro? Tens consciência de que o fundamental nos investimentos é continuar vivo e poder manter o plano de longo prazo? Você comete o erro de ir para o tudo ou nada? Está atento para que seus investimentos não se tornem dívidas?

Track Record

Track Record (TR) é o histórico de desempenho de determinado fundo. Para compararmos vários fundos usamos o índice CAGR. A sigla em inglês CAGR (Compound Annual Growth Rate), em português significa Taxa Composta Anual de Crescimento. Este índice representa a taxa de retorno de um investimento em um determinado período de tempo. Tenha cuidado com o CAGR, pois quando ele entra na mente do investidor, entra como se fosse retorno fixo, ou seja: o investidor cria a expectativa que todos os anos este será o % da valorização do fundo.

Quanto maior o TR, maior o problema: o investidor pouco qualificado acredita que tal retorno anual será reproduzido em todos os anos. Desta forma o investidor que analisou um fundo com histórico de 10 anos e que apresenta um CAGR de 12% ao ano, terá a espectativa irreal de que seu investimento neste fundo renderá 12% no próximo ano. Se você basear suas decisões apenas no CAGR, ficará frustrado.

O Mercado funciona desta maneira: período favoráveis e períodos desfavoráveis que se alternam.

Imaginemos um fundo que tem como núcleo a estratégia Trend Following, com um CAGR de 14% nos últimos 10 anos. Para chegar no CAGR de 14% em alguns anos o fundo fez 40%, enquanto em outros perdeu 15%. Se me debruçar a fundo na estratégia, vou entender que o fundo performou e fez dinheiro em momentos onde a tendência (grande deslocamento de preços) aconteceu. Por outro lado, quando o fundo performou negativamente no ano, não houve tendência e os preços ficaram navegando em uma baixa amplitude. Se eu investir em um momento onde não há tendências, estou entrando em um ciclo de perdas que deseparecerá quando as tendências acontecerem. Se eu sacar o dinheiro neste momento, não estarei exposto aos futuros ciclos favoráveis da estratégia, estarei perdendo dinheiro em um fundo cujo histórico é vencedor. Este é o motivo pelo qual é preciso investir a longo prazo, para estar exposto aos vários ciclos que favorecem a estratégia.

Independentemente do período que entro em um investimento (fundo) devo me comprometer com o longo prazo com o objetivo de capturar vários períodos favoráveis

É fácil ranquear o CAGR, o difícil é entender as estratégias e saber quando o momento é favorável e quando é desfavorável. Importante aqui é o fator psicológico para estar preparado para passar pelos momentos desfavoráveis e aguardar o retorno do momento favorável.

Dica: selecione algo mais conservador do que você toleraria.

Você está consciente de que retornos passados não são garantia de retornos futuros? Sabe que é possível não apenas deixar de ganhar, como também perder dinheiro em fundos? Está disposto a correr riscos? Você sabe por que perde e por que ganha?  O que lhe faz perder e o que lhe faz ganhar?

Renda variável varia

Uma das principais dificuldades do investidor é lidar com períodos negativos em seus investimentos. Como vimos acima, o mercado é composto por períodos favoráveis e desfavoráveis em todas as estratégias. Por isso que manter o plano de alocação em um período desfavorável/negativo está diretamente ligado ao fator psicológico. Uma coisa é saber o que fazer (técnico) e outra é fazer (psicológico).

Um histórico de longo prazo compreende um período de muitos anos. Este período é composto por meses positivos e meses negativos, anos positivos e anos negativos. Isto é normal e esperado.

Por que os investidores analisam 10 anos de histórico (TR), preenchem a documentação, abrem a conta, mandam o TED e sacam o dinheiro nos 3 primeiros meses porque a cota foi negativa? A resposta é: Pois possuem uma expectativa irreal.

Suas expectativas são reais ou você espera retornos absurdos? Sabe que os retornos no mercado financeiro não são constantes e lineares? Está disposto a correr esse risco?

Diversificação

Diversifique. Colocar todos os ovos da aposentadoria em uma mesma cesta, por exemplo, trará muita pressão psicológica no investidor. Isso fará com que o investidor monitore quase que diariamente seus investimentos, acompanhando freneticamente as flutuações positivas e negativas de seu portfólio, resultando em um estresse.

Cansado e estressado, tentando evitar a alta volatilidade diária de seus investimentos que estão concentrados em apenas uma estratégia/ativo, esse investidor aumentará o número de fundos investidos/estratégias/ativos buscando uma gama grande de diversificação, podendo chegar a uma super diversificação, gerando uma quantidade grande de burocracia e dificuldade de monitoramento e organização (avalanche de extratos). A super diversificação acarretará também em posições individuais com pouca importância no portfólio.

Até que chega o momento em que o investidor para de acompanhar e decide colocar tudo em renda fixa. Em outras palavras, ele percorreu os extremos e não encontrou o equilíbrio em seu portfólio.

Como dito acima, a diversificação pode ser exagerada (super diversificação). A super diversificação ocorre quando temos muito pouco dinheiro em muitos investimentos/estratégias/ativos. Isto dificulta o monitoramento e aumenta o custo da gestão do portfólio.

Devemos estar cientes dos dois opostos:

-Existe um preço a ser pago na super diversificação.

-Existe um perigo em não diversificar suficientemente um portfólio.

Nesse sentido, trata-se de diversificar na medida correta, sem nenhum ativo com uma relevância individual esmagadora frente ao portfólio total. Importante frisar ainda que tais ativos devem ser descorrelacionados entre si, ou seja, capazes de equilibrar perdas.

Em quantos “cestas” estão os seus investimentos? Você diversifica? Como? Tenha pelo menos 5 ativos diferentes. Seus ativos estão descorrelacionados entre si? Seja sensato: invista em fundos pouco correlacionados para não correr riscos desnecessários.

Existe um preço a ser pago quando você diversifica demais: muitos ativos implicam em ativos com pouca relevância no portfólio. Você toma cuidado para não acabar com uma gama infindável de investimentos? Sabe que, quanto maior o número de investimentos, mais difícil fica o acompanhamento?

Descorrelacione

A correlação positiva acontece quando o investidor possui muitos ativos que provavelmente se movimentarão no mesmo sentido ao mesmo tempo. Ganham juntos e perdem juntos. Um exemplo prático seria a Petrobrás e o barril de petrólio. Os dois oscilam de forma correlacionada, ou seja, quando o preço do barril de petróleo aumenta, a receita da empresa também aumenta e possivelmente a cotação da sua ação.

Se estiveres investido apenas em ativos correlacionados, estarás correndo um alto risco e falsa diversificação.

Vários fundos de ações num portfólio, por exemplo, podem não ser uma boa diversificação: são ativos possivelmente muito correlacionados, o que quer dizer que a possibilidade de andarem juntos, seja para cima, seja para baixo, é alta.

Já na correlação negativa, os ativos se movem em direções distintas, enquanto um sobe o outro recua. Um exemplo disso é a relação entre dólar e o Ibovespa (índice da bolsa de valores do Brasil). Quando  a Bolsa sobe, o dólar tipicamente tende a cair. Da mesma forma, quando o dólar sobe, a bolsa tipicamente tende a cair, havendo uma correlação negativa entre estas duas variáveis.

A descorrelação ocorre quando os ativos podem se mover juntos ou não.

Dica: fuja do tudo ou nada.

Quem investe em ativos correlacionados investe no tudo ou nada.

Seus ativos estão descorrelacionados entre si? Sabe que fundos de mesmas características tendem a se mover no mesmo sentido? Seja sensato: invista em fundos pouco correlacionados para não ir para o tudo ou nada.

Próximos passos

Agora que já sabes o que são e como funcionam os aspectos psicológicos e técnicos, é preciso uní-los: assim os pilares se transformam na construção. E é nessa junção que sai o resultado.

Crie um processo

Crie um processo de investimento em linha com sua personalidade. Mais que isso: entenda o processo. Saiba quando você lucrará e quando terá prejuízo. Conheça a estratégia e esteja ciente do grau de risco.  Veja seu portfólio como um time, aonde cada investimento/ativo tem um papel específico: defender, atacar e ter um meio campo que ajuda a atacar e volta para defender.

Por fim, fuja do produto da moda e não relacione o resultado (ganho ou perda) com a sua auto-estima. Entenda que existem ciclos favoráveis e desfavoráveis que independem da sua ação. Não ligue seu ego ao resultado dos seus investimentos.

Um conselho para a vida: se é muito bom, é bom demais para ser verdade. Pode não passar de uma fraude – quiçá uma pirâmide.

Um bom investidor se caracteriza pelo autoconhecimento, pela boa estratégia e pelo manejo diversificado do dinheiro. Você consegue ver seu portfólio como um time? Consegue fugir do produto da moda?

Monitore na hora certa

Saiba quando é necessário checar a performance de sua carteira ou dos investimentos que a compõe (diariamente/ mensalmente/ anualmente, etc)

Esteja ciente de que a flutuação diária fala pouco sobre a performance da estratégia, mas pode ser o gatilho para o investidor agir de forma equivocada, abandonando o plano de longo prazo com base em um ruído e não em uma informação.

Pelo contrário, o intervalo de observação deve ser longo o suficiente para ignorar o movimento aleatório (ruído) e curto o suficiente para que possibilite uma ação adequada do investidor para alterar o portfólio.

Para ser eficiente no monitoramento, estabeleça com que frequência você olhará os resultados e siga à risca.

Tenha paz de espírito. A falta de paz de espírito faz o investidor tomar decisões erradas, ou seja, toma decisão de maneira emocional.

Quanto maior a frequencia que você olha para os dados, maior a quantidade de ruído desproporcional ao sinal. Esse excesso de ruído é similar a iatrogenia médica: ao passo que esta é uma doença causada pelo excesso de medicamentos, aquela é causada pelo excesso de informação – o que pode prejudicar muito os seus investimentos.

Será que você não anda conferindo sua carteira com muita frequência e absorvendo variações irrelevantes? Você mantém a paz de espírito ou fica tenso esperando qualquer variação insignificante? Será que você não anda se intoxicando com notícias/informações sem importância?

Apenas os fatos, por favor

O investidor busca o consenso de opiniões. Só que o mercado não funciona assim. Para cada comprador, existe um vendedor e ambos acreditam que estão certos. É fundamental fazermos a distinção entre fato e opiniões. Quando alguém fala: "mercado vai subir", isto é uma opinião. Quando alguém fala "o mercado está na sua máxima histórica", isto é um fato.

Geralmente, quem pergunta a opinião dos outros, busca uma opinião que justifique seu próprio pensamento. Ele busca um consenso.

Como separas fatos de opiniões? Sabes quando os acontecimentos são fatos e quando são apenas opiniões?

Chocar os ovos - permanecer

A estratégia de investimento (entrar e sair apressadamente) é uma das principais causas de perda e não a seleção dos fundos.

Investir e ficar. Chocar os ovos como uma galinha faz. Ter paciência. Permanecer no curso, enfrentando os momentos desfavoráveis. Investidores de sucesso deixam que o investimento performe com o tempo.

Quanto tempo você está disposto a esperar pelo retorno que deseja? Investidores de sucesso ficam até o final.

Conclusão

Estes últimos dois posts resumem os principais pontos que fazem toda a diferença entre o sucesso e o fracasso no campo dos investimentos. Trabalhar em cima do óbvio parece ser a coisa mais brilhante a ser feita a cada dia que fico mais experiente. Queres ter sucesso? Faça o óbvio. Faça o simples.